Crónica: O silêncio das 3 da manhã em Rio de Couros
- M.S.Vieira
- 16 de jul. de 2025
- 2 min de leitura

Às três da manhã, Rio de Couros não existe no mapa. Parece que alguém apagou as estradas, as casas e até os cães que costumam latir sem motivo.
A rua em frente à minha janela fica tão quieta que o som do meu coração parece ecoar nas paredes. Às vezes penso que, se eu saísse agora, sentiria o asfalto pulsar sob os meus pés, como se a vila inteira respirasse devagar, tentando não acordar algum segredo antigo.
Na distância, ouço um motor solitário, talvez de um carro que se perdeu, ou de alguém que decidiu fugir de casa antes do amanhecer. Gosto de inventar histórias para cada barulho que quebra o silêncio: a porta que range é um aviso de que alguém entrou errado, o gato que miou no telhado carrega uma mensagem de outro mundo, e o vento que passa pela oliveira sussurra nomes que eu finjo não entender.
Às três da manhã, minha vila se transforma num palco de fantasmas íntimos. Tudo o que não tive coragem de sentir durante o dia se senta comigo na cama: os medos, as saudades, as promessas que fiz só para mim. A noite amplifica as vozes que tento calar, e cada sombra parece dançar com a minha imaginação.
Eu penso em sair para caminhar, mas fico. Porque sei que, uma vez lá fora, posso encontrar alguém — ou algo — que também me observa de longe. O silêncio de Rio de Couros não é um silêncio vazio; é um silêncio cheio de olhos invisíveis.
Gosto desse silêncio denso, quase líquido. Ele me lembra que estou viva, que respiro, que penso demais. E, acima de tudo, me lembra que, mesmo aqui, num lugar onde todos conhecem o nome de todos, há sempre mistérios guardados na escuridão.
Às três da manhã, Rio de Couros é só minha. E, no fundo, eu sei: é nesse silêncio que nascem as histórias que ainda não tive coragem de escrever.
Talvez, enquanto lias estas linhas, também tenhas sentido o silêncio se aproximar. Talvez tenhas lembrado de um som distante, de um medo antigo ou de um segredo que só aparece quando a casa inteira dorme.
Eu gosto de pensar que, em cada leitura, nasce um pequeno pacto invisível entre quem escreve e quem lê — uma promessa de que, por alguns instantes, não estamos sós.
Se quiseres, deixa um fragmento teu aqui nos comentários: um pensamento, um arrepio, uma pergunta. Vou ler tudo como quem escuta passos no corredor à noite — com atenção, curiosidade e um pouco de medo bom.
Até à próxima história. E cuidado com os ruídos que sussurram quando apagas a luz :)





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