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Ler devagar num mundo apressado


Há qualquer coisa de subversivo no acto de abrir um livro em pleno século XXI. Enquanto o mundo corre à velocidade de um scroll, enquanto os dedos deslizam impacientes por ecrãs infinitos, há quem ainda escolha folhear páginas — lentamente, como quem caminha por um jardim antigo. Ler tornou-se quase um gesto de resistência.


Nas livrarias, nota-se um tipo curioso de silêncio: não o silêncio do vazio, mas o da concentração rara. Os leitores que ali se demoram parecem vindos de outra época. Observam as lombadas como quem toca vinis — com uma espécie de reverência nostálgica. No entanto, é um luxo caro, o tempo. E talvez seja por isso que muitos já não o trocam por letras impressas, mas por notificações.


Ler exige um ritmo que o presente desaprendeu. Um livro não se consome, conquista-se. E, ao contrário das redes sociais, não nos oferece recompensas imediatas. Há livros que só nos dizem algo depois de cem páginas de silêncio; há frases que se instalam como sementes e florescem dias depois, sem aviso.


O leitor moderno vive dividido: quer tempo, mas também quer pressa. Quer mergulhar numa história, mas a mente vibra com a urgência do próximo som, da próxima mensagem, do próximo vídeo curto. Talvez por isso a leitura, hoje, precise de um certo heroísmo doméstico — o de desligar o mundo por meia hora.


Em algumas pequenas cidades, há cafés onde ainda se pode ver alguém a ler sem auscultadores. É uma imagem rara, quase cinematográfica: o copo de café a meio, a página dobrada com cuidado, o olhar distante entre parágrafos. É um retrato do que fomos e, quem sabe, do que ainda podemos ser.


Ler devagar é reaprender a existir. É aceitar que o tempo pode expandir-se dentro de uma frase. Que o silêncio também comunica. Que as histórias continuam a ser o melhor antídoto contra a pressa.

No fundo, ler é a mais humana das desobediências.

 
 
 

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© 2024 Por M.S.Vieira

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